quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Raízes do Yoga

Se você quer encontrar um assunto polêmico dentro da cultura sânscrita começe a buscar as origens mais antigas do yoga. Você vai encontrar opiniões apaixonadas, manifestações de protesto, discussões acadêmicas intermináveis e teses disparatadas. Raramente se encontra nesse campo uma postulação serena com informações que realmente possam interessar ao infeliz pesquisador.

Pois bem, então aqui vai uma boa notícia. O Centro de Yoga Montanha Encantada, localizado em Garopaba, SC, está promovendo uma semana de imersão nas Raízes do Yoga que promove uma experiência vivencial da herança antiga dessa doutrina - sem nenhum conflito com o yoga moderno. Mantras védicos da mais remota antiguidade serão integrados a práticas contemporâneas de mudras e asanas, para que se veja como tudo se harmoniza, quando queremos.

Não vão faltar elementos teóricos também, pois essa semana faz parte de uma programação maior de estudos avançados de yoga, destinados a quem busca um conhecimento bem fundamentado. As atividades são ministradas por dois indianos, um norteamericano e dois brasileiros, comigo na coordenação. De quebra haverá introdução lúdica ao Sânscrito em dois níveis (de acordo com a formação anterior do participante).

A semana das Raízes do Yoga se estende de 21 a 28 de novembro, e informações adicionais podem ser obtidas diretamente com a equipe da Montanha Encantada:

Recepção (48) 3254-2111
Escritório (48) 3254-2112
programas@yogaencantada.com.br

quinta-feira, 26 de março de 2009

Ah, como somos bobos...

Agora ha pouco recebi mais um email supostamente bem intencionado informando, desta vez, que a digitação da senha do cartão bancário invertida acionaria a polícia, e que é um procedimento recomendável em caso de sequestro relâmpago. É claro que se trata de mais uma informação falsa e mal intencionada, que vai levar alguns crédulos a digitar a senha errada e bloquear o seu cartão bancário, além de colocar sua vida em sério risco, na hipótese de estar sendo vítima de um assalto. Mas a pessoa que repassou para mim essa mensagem é absolutamente confiável, e o fez por acreditar que essa era a coisa certa a fazer - compartilhar uma informação "privilegiada" que poderia ser muito útil em uma situação de emergência.

Por que razão acreditamos em tolices como essas? Por que somos tão bobos a ponto de aceitar mensagens que são tão obviamente absurdas, tomando-as como informações de utilidade pública que devem ser repassadas para todos os nossos contatos? 

Acredito que este seja um tema adequado para psicólogos ou sociólogos, e não me atrevo a levantar hipóteses nessa área. Não sou analista. Quando muito poderia me candidatar a paciente.

Frequentemente essas informações de utilidade pública batem em mim e retornam com uma resposta. Ultimamente tenho respondido a muitas mensagens que querem me mostrar a verdadeira face da Índia, aquela que a novela da Globo não mostra. Justo para mim... Tenho de confessar que as mensagens são chocantes, não por seu conteúdo, mas por sua malignidade. Fico impressionado com o esforço que certas pessoas fazem para denegrir a imagem de um país que certamente não conhecem, mas que por alguma razão doentia odeiam profundamente.

Já descobri que grande parte das mensagens contra a Índia são produzidas por cristãos fervorosos, em geral participantes de algum movimento ou organização vinculado ao Cristianismo. Eles tentam mostrar ao mundo o quanto o Hinduísmo ou o Islamismo são destrutivos para a dignidade humana. Certamente acreditam que estão prestando um grande serviço à causa religiosa pela qual militam, mas o que fazem, de fato são atos de terrorismo, que deveriam ser observados com mais atenção pelas autoridades policiais.

Certamente não se trata apenas de jovens delinquentes amadores aprontando brincadeiras de mau gosto. Temos jornalistas profissionais produzindo desinformações que afastam o interesse dos brasileiros pela Índia - que é apresentada como se fosse o pior lugar para se conhecer em todo o mundo. A revista Veja, em agosto de 1999 publicou uma matéria sobre a Índia que é um primor de deturpações. Ela chega a afirmar que "cerca de 70% das mulheres grávidas sofrem de anemia, dando à luz crianças desnutridas", um número 25 vezes superior ao que foi constatado pela ONU em seus relatórios.

Outros contumazes divulgadores de uma tragédia inexistente são as ONGs. Ah, as ONGs... Como gostam de exagerar em números, para comover possíveis doadores para a sua causa. O jornalista britânico Peter Foster publicou em seu blog um artigo mostrando sua preocupação com essas dirtorções, nos seguintes termos: "A dificuldade é que, como repórter diário, se uma ONG destaca um número e você toma essa ONG como fonte, isso inevitavelmente cria uma manchete - exatamente como pretendia a ONG - que busca publicidade para sua "causa" (e seus esforços de levantamento de fundos)". Aqui a desinformação atende a interesses econômicos, disfarçada de nobre causa social.

Há também a desinformação plantada por países que não querem a integração entre os emergentes. Não é paranóia nem teoria da conspiração, mas sim uma parte do complexo jogo da diplomacia internacional, que acompanha a força dos interesses comerciais de cada país que entra nesse jogo. Pense bem, o que significaria para os países mais ricos do mundo uma integração entre Índia, China e Brasil? Quase a metade da população do mundo, com um imenso potencial para, por meio da cooperação mútua, deixar de ser o mero mercado consumidor desses países, para assumir o comando da Economia mundial.

Para trocar em miudos, há muitos interesses contrários a que saibamos das verdadeiras coisas boas que existem na Índia (e na China, é claro). E o que é mais curioso é que somos bobos o suficiente para acreditar nesses mal intencionados, colocando em prejuizo o nosso interesse por países que poderiam ser nossos melhores parceiros para uma grande reviravolta de poder no mundo.

De qualquer maneira, toda essa conversa foi apenas para pedir aos amigos uma simples gentileza: parem de me mandar essas baboseiras pelo email, porque eu já cansei de responder para todo mundo que é tudo mentira.

domingo, 11 de janeiro de 2009

The Day Before...

Amanhã começo mais uma rodada de cursos rápidos (cinco aulas apenas) e minha cabeça está repleta de reflexões. Esse é um fenômeno que sempre acontece comigo, não importa quantas vezes eu tenha ministrado aquele curso - antes de começar as aulas minha cabeça ferve em busca de novos "insights" para compartilhar com meus alunos. Eu diria mesmo que é um vício.

Seria muito mais fácil eu montar um programa de curso que servisse para todas as vezes que ofereço um curso sobre o mesmo assunto. Se o assunto é igual, o programa também é igual. A bibliografia é a mesma, as informações são as mesmas, e até as piadas eventuais podem se repetir. Extremamente confortável.

No entanto o que acontece é muito diferente. Eu sempre quero conferir se não houve mudanças na base de informações. Novas descobertas, novos ensaios publicados, uma nova perspectiva para os dados já coletados. Se não fizer isso, eu sinto que não estou sendo honesto com meus alunos. Se o curso é de Sânscrito, imagino a possibilidade de um aluno que tenha já alguma fluência na linguagem e preparo alguma coisa especial para ele (caso ele de fato apareça). Se é um curso de meditação, procuro novidades que tenham apresentado sucesso para o praticante imergir em si mesmo. Se vamos falar de História, então, chiii... A cada dia um fato novo é descoberto e grandes teorias desabam para abrir caminho para uma nova imagem do passado.

Eu parto do princípio de que meus alunos têm sede de aprender, e que não querem apenas colecionar informações. Um bom aluno é aquele que deseja o desfrute do "insight" - e é exatamente isso que eu quero oferecer a cada um deles.

Mas o que é o "insight"?

Às vezes, quando usamos palavras estrangeiras para dizer alguma coisa, o fazemos por não saber exatamente o que queremos dizer. Um estrangeirismo ou simplesmente uma palavra de outra língua podem constituir um fantástico recurso retórico para convencer os outros de que sabemos muito sobre aquilo que ignoramos. É muito frequente o uso de palavras desse tipo por pessoas que precisam vender para o público uma imagem de "expert" (viu só?) em alguma área do conhecimento.

Quando eu uso a palavra "insight", no entanto, estou me referindo, de maneira abreviada, a uma idéia que está bastante clara para mim, e que vou reproduzir aqui por extenso para compartilhar com você o tema de minha reflexão de hoje. O "insight" (literalmente, um "vislumbre interior") é uma visão mental que se descortina para nós, em geral subitamente, quando nosso pensamento acerta a trajetória e dirige a nossa atenção para uma idéia esclarecedora de um determinado assunto. Quando isso acontece, o assunto parece se tornar mais claro e bem delineado ante nossa intuição.

O "insight" é uma peça muito importante em nossa vida subjetiva - é talvez a mais importante de todas as peças que compõem o mecanismo de nossa vida pessoal. Quando ele orienta nossas decisões, nada pode dar errado. Ele é o melhor conselheiro para nossos relacionamentos e também o melhor consultor para a nossa vida profissional. Sem o "insight" nenhuma piada tem graça, nem tampouco a tragédia alcança profundidade. O assombro de uma descoberta é o eco de um grande "insight". As mais divertidas gracinhas que as crianças protagonizam são seus primeiros ensaios de "insight". E a firmeza de caráter é absolutamente impossível sem ele.

O "insight" nos oferece a convicção, que em geral atribuímos ao esforço do intelecto. Mas o verdadeiro brilho do "insight" produz um resultado muito mais inspirador: a fé. As crenças que fundamentam nossa relação com a natureza, e que nos dão coragem para enfrentar quaisquer adversidades que nos confrontem, são o produto de "insights" - e a força desse fenômeno em nossa vida me parece uma questão sem controvérsia.

O "insight" é a nossa experiência imediata com o aspecto superior de nossa inteligência, que é tão importante e necessário para nós que arrisco dizer que a sua ausência é similar à falta de ar nos pulmões ou de água e comida no estômago. Precisamos de inteligência para viver dignamente - e essa inteligência não provem de livros, escolas ou de nenhum guru renunciante vestido de açafrão. Essa inteligência, com todo o potencial de dar sentido à nossa vida está latente dentro de cada um de nós, pronta para explodir a qualquer momento na forma de um adorável "insight".

O despertar dessa inteligência é a única força que dá sentido à nossa vida. Essa é a minha crença. E essa exatamente é a razão de eu me preparar tão intensamente cada vez que vai se iniciar um novo curso. Quando eu entrar na sala de aula estarei diante de indivíduos sedentos de "insights", e é meu compromisso oferecer a melhor oportunidade que eu seja capaz de construir, para que eles encontrem essa extraordinária riqueza que é a inteligência perfeita que cada um deles traz dentro de si, sempre.


domingo, 13 de julho de 2008

Um mundo sem fronteiras

Hoje pela manhã fui tomado por um sentimento misto de felicidade e tristeza ao acompanhar minha filha Susan ao aeroporto. Aos vinte anos, ela está iniciando uma nova fase de sua vida em São Francisco, na California. Vai encarar o mundo de frente e mostrar sua capacidade de se dar bem, mesmo estando geograficamente longe de sua família.

Esse momento pessoal evocou em meu coração a sensação que tive ao chegar pela primeira vez à Índia, mais precisamente em Nova Delhi, e sentir que continuava em casa. É uma experiência indescritível essa que nos acomete quando identificamos nosso lar e nossa pátria em lugares distantes. O mundo num instante se torna pequenininho e as sombras enigmáticas do "desconhecido" o abandonam, cada vez mais, a cada nova viagem.

Mas ao longo de minha vida pude também testemunhar alguns casos em que o viajante foi colhido por uma profunda sensação de "desencaixe", que só poderia ser curada pelo seu retorno ao lar. "Home sickness", ou saudades do lar, é como uma tontura que abala nosso coração - quase como se de repente nos faltasse o oxigênio, ou como se nos restasse apenas o suficiente para fazer o caminho de volta, sem demora.

Tive a oportunidade ainda de conhecer pessoas que simplesmente não se permitem sentir-se à vontade fora de seu país ou de sua casa porque sua mente inquieta bloqueia qualquer sentimento de agrado por quaisquer lugares que não sejam seu lar e seu país de origem. Imagino que isso tenha a ver com valores intelectuais - ideologias - e que esteja completamente desconectado de sentimentos verdadeiros. Essa é uma condição que eu chamaria de "mórbida", do tipo que fundamenta os nacionalismos políticos, e anda sempre acompanhada de justificativas elaboradas nas quais se constrói a idéia de superioridade ou de "exclusividade proprietária", uma idéia dotada de uma força que atrai e envolve cada componente da comunidade.

Quem sai de casa com o coração aberto, por outro lado, sente felicidade por estar onde quer que esteja. Sua família é a Humanidade e sua pátria é o mundo inteiro. Isso só pode acontecer para alguém sincero, que carrega consigo mesmo valores universalmente aplicáveis que mostram seu colorido pessoal em qualquer paisagem que o cerque. O indivíduo autêntico não se esconde sob bandeiras nacionais nem se revela apenas dentro de grupos que compartilham um perfil determinado. Ele é o mesmo em qualquer lugar e em qualquer companhia - e por isso desfruta da felicidade de se sentir bem em quaisquer circunstâncias. Mesmo que as pessoas ao seu redor sejam muito diferentes, ele ainda asssim se sente um igual, e se comporta como um igual.

As fronteiras nacionais são convenções sociais que só podem existir no papel. Quando elas se incorporam à alma das pessoas, o mundo se torna estranhamente hostil. A Humanidade deveria procurar uma vacina contra os sentimentos nacionalistas. Deveria banir essas barreiras que exigem que uma pessoa natural peça autorização para poder transitar em não importa que lugar do mundo natural. Não é correto, não é justo, não é humano - é apenas um produto da razão humana enlouquecida pelo egoismo, mas se tornou uma doença que hoje afeta toda a Humanidade.

As fronteiras nacionais, embora perfeitamente justificadas pelo entendimento de que o ser humano é um perigo em potencial para a comunidade humana, pecam justamente por funcionar como agentes de reforço de ódios alimentados politicamente. Onde existe uma fronteira se manifesta uma supervalorização daquilo que está para o lado de cá, e um grande desprezo pelo que se estende além desses limites imaginários. É como se a Natureza funcionasse diferente de cada um dos lados dessa divisa, e fosse deficiente apenas do lado de fora. As fronteiras são os traços fisionômicos que identificam cada uma das guerras que a Humanidade tem para se arrepender.

Fronteiras nacionais fazem mal ao coração do ser humano autêntico. Elas são contrárias ao espírito do yoga e contradizem também a crença na igualdade de todo ser humano. Onde quer que a Paz tenha se instalado, as fronteiras deixaram de fazer sentido e acabaram caindo no esquecimento. O fato de ainda existirem fronteiras no mundo, apesar de todo o gradual amadurecimento do espírito ambientalista e das campanhas contra a violência, mostra que o o planeta humano ainda está muito doente, e talvez ainda bem longe da cura. A cura depende de uma providência impossível de se determinar por convenções, leis ou decretos. É necessário que cada indivíduo, como pessoa natural que é, remova de seu coração essas barreiras não-naturais.

Quando cada um de nós perceber o estrangeiro e o diferente como um compatriota e um igual, não haverá mais razão para dar nomes aos países ou nacionalidades. Não fará o menor sentido exigir um passaporte ou qualquer outro título de vinculação social para assegurar a uma pessoa humana seu inalienável direito à liberdade e ser e viver, de se mover e interagir - em qualquer lugar e com quem quer que seja.

Minha filha hoje foi para o outro lado da cerca, milhares de quilometros para longe de sua família. Como sei que não alimentamos barreiras em seu coração, fico feliz porque ela estará em casa, onde quer que esteja - e poderá desfrutar da suprema felicidade de se realizar como ser humano, e fazer de cada nova amizade um membro adicional para nossa grande família.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Tatuagens em Sânscrito

Pessoalmente não tenho nada contra fazer uma tatuagem. Não faria, mas aprecio essa arte que deve ser tão antiga quanto a própria Humanidade. E é natural, também, que os "tatuandos" tenham o desejo de grafar alguma coisa em seu corpo com o alfabeto Devanagari - aquele que se usa para escrever em Sânscrito. Digo isso porque toda hora recebo alguma mensagem pedindo tal ou qual palavra ou frase para alguém se tatuar "em Sânscrito". E que me perdoem os consulentes, mas raramente tenho tempo para responder a essas consultas.

Como transito no ambiente de praticantes de yoga, tem sido freqüente encontrar algum braço ou ombro tatuado com dizeres grafados em Devanagari (o alfabeto). Não faço comentários sem ser solicitado, mas vou confessar que me espantam algumas barbaridades que as pessoas deixaram gravar em sua pele - possivelmente sem ter consciência do que estavam escrevendo.

Vamos esclarecer. Não tenho nada a dizer quanto ao conteúdo dos grafismos, que são assunto da conta apenas de quem solicita a tatuagem. Mas nunca soube de algum tatuador que tivesse estudado o Sânscrito ou que estivesse familiarizado com o alfabeto Devanagari. Isto significa que os clientes, muito provavelmente, estão levando para o tatuador o "desenho" da palavra ou frase que querem grafar em seu corpo. E mais provavelmente ainda, estão solicitando de alguma outra pessoa o modelo para levar ao tatuador. É como uma corrente. O tatuador não sabe, e então pede ao cliente que já leve pronto. O cliente também não sabe, e então faz uma busca na Internet para tentar achar quem possa escrever um nome no alfabeto Devanagari ou uma palavra ou duas da língua sânscrita mesmo.

E então o infeliz encontra alguém que diz que sabe - e às vezes até pede uma grana para fazer o trabalho - mas na verdade não sabe. O desconhecimento de um, aliado à ousadia do outro que também não conhece, mas diz que conhece, produz as barbaridades às quais me referi. São palavras grafadas de maneira completamente errada impressas em caráter permanente (pois sua remoção é difícil e envolve um sofrimento muito maior que a gravação) na fachada corporal de uma beldade que passeia por aí, com muito orgulho. Não há dinheiro mais mal gasto do que esse...

A conclusão inevitável é que não vale a pena tatuar na pele algum grafismo que não temos certeza de estar corretamente desenhado. Alguém certa vez disse a uma estudante de arquitetura, em Mogi das Cruzes, que restaurantes chineses costumavam escrever provérbios de Confúcio nas beiradas dos cardápios. Disposta a exibir uma frase bonita, visitou um desses estabelecimentos e copiou cuidadosamente alguns ideogramas que enfeitavam os cantos do cardápio, sob o olhar curioso dos garçons. A sua sorte foi que ela não tatuou, mas apenas pintou em um quimono que exibia orgulhosa pelos corredores da faculdade, até cruzar com um estudante chinês, que depois de rir muito explicou para ela o que ela havia escrito, na língua de Confúcio: "este é um prato muito gostoso e bastante barato". O que mais se pode esperar de uma frase impressa num cardápio?

Aviso aos tatuantes: restaurantes indianos não colocam mantras nos cardápios! E pesquisar no Google pode não ser a melhor maneira de encontrar um bom tradutor de Sânscrito. Na verdade é a maneira mais rápida de conseguir o contato errado. O sujeito que poderia resolver o desenho de sua tatuagem nem tem um site para tratar desse assunto. Mas o não-tradutor que se diz tradutor tem presença garantida nos links de resposta de sua busca, exibindo sem pudor nenhum suas obras, como se estivessem todas corretas.

Quando o tatuado descobre que escreveu besteira em si mesmo - e acreditem, essa descoberta é muito rara pois quase ninguém entende Sânscrito por aqui - sua primeira reação é procurar um culpado. O tatuador não é, pois ele apenas reproduziu o desenho, com muita habilidade artística e algumas "firulas" para dar um toque especial à obra. O farsante que vendeu o desenho nunca deu uma garantia, e terá uma lista de argumentos incompreensíveis para dizer que estava certo o que escreveu, alegando talvez que até mesmo indianos o consultam para aquela tarefa. O mico, portanto, vai ficar mesmo com quem carrega a "tosca" tatuagem - e que vai torcer para que ninguém mais perceba que seu sonho de consumo se tornou um pesadelo oriental.

Fica aqui o conselho, portanto, que vale como prevenção contra males maiores: quer fazer uma tatuagem em Sânscrito? Então faça. Mas assegure-se de que está escrevendo a coisa certa. Consulte um especialista de verdade, e não um oportunista. Dezenas de pessoas estudaram Sânscrito a sério e podem te dar uma boa orientação sobre a grafia de sua tatuagem. Se é uma marca definitiva em seu corpo, e você está pagando para fazê-la, então pague um pouco mais para que seja elaborada por um profissional do Sânscrito.

No Yogaforum coloquei uma coluna com links para alguns profissionais que trabalham com o Sânscrito. São pessoas que estudaram a língua em nível superior ou em cursos ministrados por instrutores sérios (daqui ou da Índia), e que são pagos para dar aulas de Sânscrito. Não sei se algum deles teria disponibilidade para pegar esses pequenos serviços de "consultoria para tatuagens", mas certamente é um bom lugar para começar sua pesquisa.

Como prova de minha solidariedade para com os aspirantes a uma tatuagem em Devanagari, vou fazer uma promessa digna de ano eleitoral. Prometo levantar quem são as pessoas capacitadas que se disporiam a dar orientação aos tatuadores e seus clientes, para que uma decisão tão importante como a de estampar uma tatuagem desse tipo fique livre do risco de uma fraude. E assim que essa informação estiver pronta publico aqui mesmo ou no Yogaforum. Até lá vale a recomendação de muita cautela, e de checar em mais de uma fonte se está certo o desenho que vai cicatrizar em você.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Olá. Como vai?

Pois é. O Yogaforum está no ar (www.yogaforum.org) e já me dei conta do volume imenso de trabalho que terei ainda até que uma rotina de alimentação de conteúdo se estabeleça. Todo o foco de meu esforço, até o momento, vinha sendo o de preparar o melhor ambiente virtual e conteúdo para os visitantes do site. Mas... que visitantes?

Há muitos anos eu trabalhei na área de publicidade. Naquele tempo não havia Internet, e o conceito de virtualidade só era discutido nas aulas de física ("virtual" era a natureza das imagens refletidas em um espelho). Então, quando montávamos um plano de mídia, nosso alvo eram pessoas de carne e osso, e não "avatares" de algum meta-espaço.

Mas os tempos são outros e precisamos nos conformar às novas regras de comunicação. Este blog é um exemplo de como a nova ordem possibilita uma conversa informal com um visitante virtual de minha página. Olá. Como vai?

Qualquer um pode entrar e sair do Yogaforum. Um surfista de Internet que acidentalmente desemboca por ali, pode dar uma olhada casual e seguir seu fluxo desinteressado. Um tarado pode fuçar por ali atrás de fotos de mulher pelada, e um outro pode estar procurando sugestões para uma balada. A Internet tem o piso escorregadio, e ao menor descuido estamos entrando em espaços que nada têm a ver com a gente.

Mas quando eu me debruçava sobre os rascunhos desse forum virtual, eu não via nenhum desses inúmeros visitantes casuais. Será que eu não deveria me preocupar com eles, também? Há algum tempo eu costumava dizer que nada acontece verdadeiramente por acaso. Até um acidente de navegação pode ter um propósito que nossa percepção não alcança. E então a navegação se torna mística e, quem sabe até iluminadora...

Os povos antigos costumavam dizer que os jogos de azar são para os homens, e que os deuses não jogam dados. Mas caberia perguntar, diante da imensa arquitetura telemática sobre a qual se apóia a maior parte da civilização, hoje: será que Deus navega por esses mares da Internet? Ele poderia ser o responsável por tornar essas avenidas digitais tão reais e atraentes para o cidadão beneficiário da inclusão digital. Talvez ele tenha descoberto que jamais em toda a história religiosa da Humanidade um deus foi tão adorado e cultuado quanto a Internet o é, agora.

Então, fazendo essas reflexões, me sinto muito mais confortado por saber que ao construir o Yogaforum posso ter, simplesmente, atendido a um desígnio divino. E que talvez não me caiba a preocupação acerca de quem vai visitar o meu site - e se tem ou não tem o perfil para o qual ele foi concebido. Movidos pelas forças divinas, os internautas casuais simplesmente vão desfrutar de uns instantes de imersão por ali, e em seguida, sem qualquer constrangimento vão, com um clique a mais, fechar a janela e seguir viagem. Boa viagem, então.

Para aqueles poucos que, diferentes dos casuais, encontrarem ali algum conforto para suas expectativas, peço a gentileza de me presentear com sua opinião, e com muita sinceridade. Pois esse é o momento do trabalho na Internet em que ficamos finalmente diante de uma pessoa por inteiro - ainda que a uma considerável distância virtual. O mundo da Internet repousa sobre uma superfície insegura e escorregadia, onde só se mantém firme quem tem uma opinião bem articulada, na qual possa se apoiar.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Minha web para o Sânscrito, finalmente!

Parece brincadeira, mas quando tive a idéia de construir um site pautado pelo Sânscrito e com foco no Yoga, há quase sete anos, não pensei que demoraria tanto tempo para colocá-lo no ar. Foi uma longa gestação, mas finalmente minhas novas rotinas estão se ajustando às minhas antigas aspirações, e o resultado não poderia ser melhor. Em poucos dias estará no ar o site "yogaforum.org" com informações e notícias sobre temas culturais indianos.


A idéia surgiu quando organizei o fórum em defesa da independência do Yoga, que aconteceu em setembro de 2001, no salão nobre da Câmara Municipal de São Paulo. A data do evento se tornou inesquecível, pois foi no dia seguinte ao do ataque terrorista que derrubou as torres do World Trade Center de Nova Iorque. Em 12 de setembro de 2001, enquanto o mundo tentava entender a tragédia nova-iorquina, estavamos reunidos para manifestar nossa convicção sobre a independência do Yoga - contra a despropositada tentativa (ainda em curso) dos conselhos de classe da Educação Física de tomar para si o controle sobre essa prática tradicional indiana.


Éramos poucos, cerca de trezentas e cinquenta pessoas presentes, mas éramos diversificados e expressivos como representação das variadas formas assumidas pelo Yoga por aqui. Maria Helena de Bastos Freire, De Rose, Hermógenes, Cláudio Duarte, Anna Ivanov, estavam compondo a mesa, presidida pelo então vereador Marcos Zerbini. Outros tantos manifestaram seu apoio prestigiando o evento e assinando um manifesto em favor da independência do Yoga.

Esse evento foi concebido para ter o formato de um forum - um encontro de opiniões distintas integradas por interesses comuns. Ali mesmo me ocorreu a idéia de que seria interessante dar continuidade à iniciativa criando um território virtual para ela na Web.

Busquei um nome para o domínio, e o "yogaforum.org" estava disponível. Perfeito. Só faltava então montar o site e colocá-lo no ar...

Apesar de só ter saido dos rascunhos seis anos e meio mais tarde, ele surge com o mesmo entusiasmo que me motivou no início. Porém, diferente da proposta original, o Yogaforum agora deixa de tratar com exclusividade do assunto "yoga" e mergulha um pouco mais a fundo no oceano da Cultura Sânscrita. Ao final de 2006, quando fiz o lançamento experimental do primeiro volume do curso de Sânscrito em DVD, decidi utilizar o servidor "yogaforum.org" como base de distribuição da documentação complementar para cada um dos volumes da coleção. De fato, um selo "ॐ yogaforum.org - Living Sanskrit" já aparece estampado na capa daquele material, embora o site, naquele momento, tenha operado por um breve período apenas, de forma experimental.

Mas ainda que tenha levado tanto tempo para nascer, posso dizer que agora ele está ficando com a cara que eu gostaria que ele tivesse. Nestes últimos dias tenho trabalhado na programação das rotinas de atualização do conteúdo e, embora ciente de que é difícil agradar a todos, creio que estou chegando a uma solução bastante satisfatória para apresentação de informações de interesse dos aficionados pelas culturas da Índia.

Em tempo: como preciso dos anunciantes para ajudar a dar conta do custo desse site, procurei estabelecer alguns filtros para a publicidade - de modo que ela seja útil e esteja naturalmente integrada na experiência de navegação do internauta que apareça por ali.

Então é isso. Agora você ja sabe o endereço (http://www.yogaforum.org/), e está convidado a fazer uma visita nesses próximos dias, a partir de 1º de maio, para explorar o conteúdo (que estará mais rico a cada semana que passa), e dizer um "alô" para aquele anunciante que tiver algo de interessante para te oferecer. E não se esqueça de me dar um retorno para dizer qual foi sua impressão ao passar pelo Yogaforum virtual.