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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Raízes do Yoga

Se você quer encontrar um assunto polêmico dentro da cultura sânscrita começe a buscar as origens mais antigas do yoga. Você vai encontrar opiniões apaixonadas, manifestações de protesto, discussões acadêmicas intermináveis e teses disparatadas. Raramente se encontra nesse campo uma postulação serena com informações que realmente possam interessar ao infeliz pesquisador.

Pois bem, então aqui vai uma boa notícia. O Centro de Yoga Montanha Encantada, localizado em Garopaba, SC, está promovendo uma semana de imersão nas Raízes do Yoga que promove uma experiência vivencial da herança antiga dessa doutrina - sem nenhum conflito com o yoga moderno. Mantras védicos da mais remota antiguidade serão integrados a práticas contemporâneas de mudras e asanas, para que se veja como tudo se harmoniza, quando queremos.

Não vão faltar elementos teóricos também, pois essa semana faz parte de uma programação maior de estudos avançados de yoga, destinados a quem busca um conhecimento bem fundamentado. As atividades são ministradas por dois indianos, um norteamericano e dois brasileiros, comigo na coordenação. De quebra haverá introdução lúdica ao Sânscrito em dois níveis (de acordo com a formação anterior do participante).

A semana das Raízes do Yoga se estende de 21 a 28 de novembro, e informações adicionais podem ser obtidas diretamente com a equipe da Montanha Encantada:

Recepção (48) 3254-2111
Escritório (48) 3254-2112
programas@yogaencantada.com.br

domingo, 13 de julho de 2008

Um mundo sem fronteiras

Hoje pela manhã fui tomado por um sentimento misto de felicidade e tristeza ao acompanhar minha filha Susan ao aeroporto. Aos vinte anos, ela está iniciando uma nova fase de sua vida em São Francisco, na California. Vai encarar o mundo de frente e mostrar sua capacidade de se dar bem, mesmo estando geograficamente longe de sua família.

Esse momento pessoal evocou em meu coração a sensação que tive ao chegar pela primeira vez à Índia, mais precisamente em Nova Delhi, e sentir que continuava em casa. É uma experiência indescritível essa que nos acomete quando identificamos nosso lar e nossa pátria em lugares distantes. O mundo num instante se torna pequenininho e as sombras enigmáticas do "desconhecido" o abandonam, cada vez mais, a cada nova viagem.

Mas ao longo de minha vida pude também testemunhar alguns casos em que o viajante foi colhido por uma profunda sensação de "desencaixe", que só poderia ser curada pelo seu retorno ao lar. "Home sickness", ou saudades do lar, é como uma tontura que abala nosso coração - quase como se de repente nos faltasse o oxigênio, ou como se nos restasse apenas o suficiente para fazer o caminho de volta, sem demora.

Tive a oportunidade ainda de conhecer pessoas que simplesmente não se permitem sentir-se à vontade fora de seu país ou de sua casa porque sua mente inquieta bloqueia qualquer sentimento de agrado por quaisquer lugares que não sejam seu lar e seu país de origem. Imagino que isso tenha a ver com valores intelectuais - ideologias - e que esteja completamente desconectado de sentimentos verdadeiros. Essa é uma condição que eu chamaria de "mórbida", do tipo que fundamenta os nacionalismos políticos, e anda sempre acompanhada de justificativas elaboradas nas quais se constrói a idéia de superioridade ou de "exclusividade proprietária", uma idéia dotada de uma força que atrai e envolve cada componente da comunidade.

Quem sai de casa com o coração aberto, por outro lado, sente felicidade por estar onde quer que esteja. Sua família é a Humanidade e sua pátria é o mundo inteiro. Isso só pode acontecer para alguém sincero, que carrega consigo mesmo valores universalmente aplicáveis que mostram seu colorido pessoal em qualquer paisagem que o cerque. O indivíduo autêntico não se esconde sob bandeiras nacionais nem se revela apenas dentro de grupos que compartilham um perfil determinado. Ele é o mesmo em qualquer lugar e em qualquer companhia - e por isso desfruta da felicidade de se sentir bem em quaisquer circunstâncias. Mesmo que as pessoas ao seu redor sejam muito diferentes, ele ainda asssim se sente um igual, e se comporta como um igual.

As fronteiras nacionais são convenções sociais que só podem existir no papel. Quando elas se incorporam à alma das pessoas, o mundo se torna estranhamente hostil. A Humanidade deveria procurar uma vacina contra os sentimentos nacionalistas. Deveria banir essas barreiras que exigem que uma pessoa natural peça autorização para poder transitar em não importa que lugar do mundo natural. Não é correto, não é justo, não é humano - é apenas um produto da razão humana enlouquecida pelo egoismo, mas se tornou uma doença que hoje afeta toda a Humanidade.

As fronteiras nacionais, embora perfeitamente justificadas pelo entendimento de que o ser humano é um perigo em potencial para a comunidade humana, pecam justamente por funcionar como agentes de reforço de ódios alimentados politicamente. Onde existe uma fronteira se manifesta uma supervalorização daquilo que está para o lado de cá, e um grande desprezo pelo que se estende além desses limites imaginários. É como se a Natureza funcionasse diferente de cada um dos lados dessa divisa, e fosse deficiente apenas do lado de fora. As fronteiras são os traços fisionômicos que identificam cada uma das guerras que a Humanidade tem para se arrepender.

Fronteiras nacionais fazem mal ao coração do ser humano autêntico. Elas são contrárias ao espírito do yoga e contradizem também a crença na igualdade de todo ser humano. Onde quer que a Paz tenha se instalado, as fronteiras deixaram de fazer sentido e acabaram caindo no esquecimento. O fato de ainda existirem fronteiras no mundo, apesar de todo o gradual amadurecimento do espírito ambientalista e das campanhas contra a violência, mostra que o o planeta humano ainda está muito doente, e talvez ainda bem longe da cura. A cura depende de uma providência impossível de se determinar por convenções, leis ou decretos. É necessário que cada indivíduo, como pessoa natural que é, remova de seu coração essas barreiras não-naturais.

Quando cada um de nós perceber o estrangeiro e o diferente como um compatriota e um igual, não haverá mais razão para dar nomes aos países ou nacionalidades. Não fará o menor sentido exigir um passaporte ou qualquer outro título de vinculação social para assegurar a uma pessoa humana seu inalienável direito à liberdade e ser e viver, de se mover e interagir - em qualquer lugar e com quem quer que seja.

Minha filha hoje foi para o outro lado da cerca, milhares de quilometros para longe de sua família. Como sei que não alimentamos barreiras em seu coração, fico feliz porque ela estará em casa, onde quer que esteja - e poderá desfrutar da suprema felicidade de se realizar como ser humano, e fazer de cada nova amizade um membro adicional para nossa grande família.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Minha web para o Sânscrito, finalmente!

Parece brincadeira, mas quando tive a idéia de construir um site pautado pelo Sânscrito e com foco no Yoga, há quase sete anos, não pensei que demoraria tanto tempo para colocá-lo no ar. Foi uma longa gestação, mas finalmente minhas novas rotinas estão se ajustando às minhas antigas aspirações, e o resultado não poderia ser melhor. Em poucos dias estará no ar o site "yogaforum.org" com informações e notícias sobre temas culturais indianos.


A idéia surgiu quando organizei o fórum em defesa da independência do Yoga, que aconteceu em setembro de 2001, no salão nobre da Câmara Municipal de São Paulo. A data do evento se tornou inesquecível, pois foi no dia seguinte ao do ataque terrorista que derrubou as torres do World Trade Center de Nova Iorque. Em 12 de setembro de 2001, enquanto o mundo tentava entender a tragédia nova-iorquina, estavamos reunidos para manifestar nossa convicção sobre a independência do Yoga - contra a despropositada tentativa (ainda em curso) dos conselhos de classe da Educação Física de tomar para si o controle sobre essa prática tradicional indiana.


Éramos poucos, cerca de trezentas e cinquenta pessoas presentes, mas éramos diversificados e expressivos como representação das variadas formas assumidas pelo Yoga por aqui. Maria Helena de Bastos Freire, De Rose, Hermógenes, Cláudio Duarte, Anna Ivanov, estavam compondo a mesa, presidida pelo então vereador Marcos Zerbini. Outros tantos manifestaram seu apoio prestigiando o evento e assinando um manifesto em favor da independência do Yoga.

Esse evento foi concebido para ter o formato de um forum - um encontro de opiniões distintas integradas por interesses comuns. Ali mesmo me ocorreu a idéia de que seria interessante dar continuidade à iniciativa criando um território virtual para ela na Web.

Busquei um nome para o domínio, e o "yogaforum.org" estava disponível. Perfeito. Só faltava então montar o site e colocá-lo no ar...

Apesar de só ter saido dos rascunhos seis anos e meio mais tarde, ele surge com o mesmo entusiasmo que me motivou no início. Porém, diferente da proposta original, o Yogaforum agora deixa de tratar com exclusividade do assunto "yoga" e mergulha um pouco mais a fundo no oceano da Cultura Sânscrita. Ao final de 2006, quando fiz o lançamento experimental do primeiro volume do curso de Sânscrito em DVD, decidi utilizar o servidor "yogaforum.org" como base de distribuição da documentação complementar para cada um dos volumes da coleção. De fato, um selo "ॐ yogaforum.org - Living Sanskrit" já aparece estampado na capa daquele material, embora o site, naquele momento, tenha operado por um breve período apenas, de forma experimental.

Mas ainda que tenha levado tanto tempo para nascer, posso dizer que agora ele está ficando com a cara que eu gostaria que ele tivesse. Nestes últimos dias tenho trabalhado na programação das rotinas de atualização do conteúdo e, embora ciente de que é difícil agradar a todos, creio que estou chegando a uma solução bastante satisfatória para apresentação de informações de interesse dos aficionados pelas culturas da Índia.

Em tempo: como preciso dos anunciantes para ajudar a dar conta do custo desse site, procurei estabelecer alguns filtros para a publicidade - de modo que ela seja útil e esteja naturalmente integrada na experiência de navegação do internauta que apareça por ali.

Então é isso. Agora você ja sabe o endereço (http://www.yogaforum.org/), e está convidado a fazer uma visita nesses próximos dias, a partir de 1º de maio, para explorar o conteúdo (que estará mais rico a cada semana que passa), e dizer um "alô" para aquele anunciante que tiver algo de interessante para te oferecer. E não se esqueça de me dar um retorno para dizer qual foi sua impressão ao passar pelo Yogaforum virtual.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Adeus, Prefeitura

Dia 24 de janeiro de 2008 entrará para o meu calendário oficial como o meu último dia de trabalho na prefeitura de São Paulo. Um dia que só é importante, para muitos, por ser a véspera do aniversário do município, mas que se torna importantíssimo para mim, por anteceder o primeiro de uma nova fase em minha vida. Depois de quinze anos de poder público, e mais vinte de mercado publicitário e artes visuais, chegou a hora de me dedicar à Cultura da Índia – essa gigantesca herança que a Humanidade ainda não soube aproveitar.

Às vezes duvido de que não vou me envolver com outras atividades, mas estou determinado a concentrar meu foco nessa preciosidade, pelas duas áreas que melhor conheço: a língua sânscrita e o Yoga. O que até hoje foi minha atividade paralela vai finalmente assumir o papel principal no roteiro da minha vida.

Vou pedir proteção ao Senhor dos Dançarinos, o poderoso Shiva, que certamente não me deixará desamparado. Posso afirmar isso com segurança e sem qualquer conotação religiosa porque segundo essa tradição mais do que milenar, Shiva é o “eu” que reside dentro do coração de cada um de nós. Ele é o ator principal, e também o único espectador nesse teatro onde atuo, desde quando nasci. Palmas para ele, então, pois a partir de agora ele também foi promovido a diretor e produtor executivo de minhas maluquices.

Não sei se o prefeito vai sentir a minha falta. A briga que se armou entre ele (Gilberto Kassab) e o outro (Geraldo Alckmin), já começou a fazer barulho grande. Tanto melhor para mim, que saio “à francesa” desse palco que está virando ringue. Enquanto o PSDB e o Demo se desentendem, eu caio fora, para dentro de mim mesmo.

Resta dizer adeus aos documentos de fé pública, e dar as boas vindas às boas práticas de minha fé particular. Acredito demais naquilo que nos chega pela voz de nossos ancestrais e estou convencido de que eles ainda estão aí para ouvir a nossa voz, quando falamos a linguagem dos mitos.

Então, anote aí e não se esqueça. Minhas novas aventuras vão ao ar a partir do dia 25, em qualquer horário, em todos os meus canais.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Desunião e Yoga



"Yoga é união". Este é um clichê interessante, que ainda hoje continua a ser repetido por praticantes ou teóricos dessa arte. A palavra "yoga", na verdade, não significa "união", mas ainda assim a tradução é aceitavel, se a intenção for boa. No universo profissional do Yoga, no entanto, "união" é um termo que tem andado meio fora de moda.
Há algumas décadas, quando conheci o Yoga, poucos eram os instrutores dessa prática. Pouca, também, a informação disponível sobre o assunto. Essa era de fato a maior dificuldade, trinta e cinco anos atrás: obter informações - quaisquer que fossem elas. Era incrível como os aficionados do Yoga ficavam felizes com uma simples matéria que saísse na revista "Fatos & Fotos" ou na popular "Manchete", tomando esse material como referência de reconhecimento para suas crenças pessoais. Nos anos sessenta, vez por outra saia uma "reportagem" fotográfica sobre praticantes de Yoga, cheia de fotos mostrando posturas exóticas e pessoas com expressão de êxtase místico. Me lembro de uma dessas matérias, com fotos tomadas em um parque (talvez a Floresta da Tijuca) no Rio de Janeiro. Foi o maior sucesso, pelo que posso recordar.

Era uma época de muita ingenuidade, aquela. E olha que não faz tanto tempo assim. Entre os anos 50 e 70, qualquer um que conseguisse manter uma conversação coerente por mais de vinte minutos sobre algum assunto - inclusive o Yoga - poderia se tornar referência para o tema. Talvez você conheça algum figurão daquela época que se enquadre nesse perfil. E era possível dizer o que bem se quisesse, pois dificilmente haveria alguém para contestar suas opiniões, tal a dificuldade de acesso ao conhecimento.

As dificuldades eram muitas. Meu primeiro dicionário de Sânscrito, uma publicação da fantástica editora indiana "Motilal Banarsidass" foi conseguido a duras penas depois de muita troca de correspondência (pelo correio tradicional, em papel) e uma ordem de pagamento internacional carregada de burocracia. Depois disso, ainda esperei mais de seis meses até que o pacote com meu livro atravessasse o Saara no lombo de um camelo e fosse despachado em navio a partir do Marrocos. Um ano inteiro se passou entre o momento da decisão e a chegada do livro em minha casa. E isso foi há apenas trinta e poucos anos.

Hoje ninguém mais poderia reclamar que o acesso à informação é difícil. Uns poucos cliques de mouse unem rapidamente qualquer cybercidadão às respostas de que necessite. Uma consulta bem orientada no "Google" responde a qualquer dúvida que o internauta possa levantar. E ele ainda pode comprar qualquer livro pela Internet, e recebê-lo em sua casa em poucos dias, na pior das hipóteses.

Esse quadro sugere que seria bastante natural que hoje não houvessem mais disputas de opinião, como aquelas de antigamente, quando o desafio era conseguir provar que estava certo, ou que seu oponente estava errado. Teoricamente deveríamos estar todos compartilhando as mesmas preciosas informações sobre os temas de nosso interesse, e jamais seríamos afetados por conflitos de idéias.

Infelizmente não é assim que a coisa funciona. A informação às vezes parece uma lente de aumento, pronta para ampliar as minúcias de nossa diversidade. Onde poderia haver consenso, surge conflito. Onde poderia haver união, discórdia. Essa é a armadilha que ronda os atuais simpatizantes do Yoga, pronta para inspirar desentendimentos verossímeis e intelectualmente bem articulados. Aos yoguinas desta hora está sobrando informação, vocabulário e teoria, mas às vezes falta o bom senso básico dessa doutrina. E o perigo espreita muito de perto uma minoria, que anda miseravelmente pobre de inteligência.

Então vamos ficar despertos. Ainda há muitas tentativas de alimentar discórdia entre os instrutores e praticantes do Yoga. Mas se disseminarmos um pouco de vigilância e boa vontade por aí, certamente há uma boa chance de encontrarmos a Paz nesse "front".